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A nova companhia da empresária que atraiu Bill Gates

A empresária que atraiu a atenção de Bill Gates e, mais tarde, trouxe ao país o braço de tecnologia do influente grupo Tata, da Índia, agora quer vender hambúrguer. Não, Cristina Boner não vai abrir uma rede de fast-food, mas o tradicional sanduíche é um símbolo adequado para o que ela quer vender com sua nova empresa, batizada de Globalweb Cloud.

A companhia, que é a mais nova unidade da Globalweb Corp, fundada por Cristina, segue o conceito identificado por uma sigla ainda pouco conhecida – CSB, de “cloud service brokerage” ou gestão multinuvem. Muitas empresas e governos estão migrando para o modelo da nuvem, pelo qual softwares e dados não precisam ficar nos computadores dos usuários. Em vez disso, são armazenados em centros de dados e acessados via internet. O cliente paga pelo que usa e pode consumir mais ou menos capacidade de processamento sem ter de gastar com equipamentos e softwares adicionais.

O problema, diz Cristina, é que o número de fornecedores na nuvem cresceu tanto que ficou difícil para os clientes saber de quem comprar ou prever quanto será gasto, tamanha a pulverização do mercado. “Os provedores, agora, vão ter de se encontrar ao redor do ‘broker’, que reúne todos eles em um ponto único”, afirma.

A Globalweb Cloud fechou acordos com quase uma dezena de fornecedores das diversas camadas da nuvem, desde infraestrutura até requisitos de segurança. A lista inclui marcas como Amazon, Jam Cracker, Huawei, Panda e IBM. Como quem vai à lanchonete, o cliente escolhe o que quer. Pode pedir um hambúrguer com todos os ingredientes disponíveis ou versões mais leves, escolhendo o que vai levar. “É como adicionar queijo ou tirar o pão”, compara Cristina. Para facilitar, a empresa adotou outra abordagem típica do fast-food – os “combos”. São três combinações prontas: a mais barata custa R$ 6,6 mil por mês; a mais cara, R$ 42,3 mil.

“O mercado adora comprar, mas odeia comprar de maneira errada”, diz a empresária. No portal da Globalweb Cloud, os clientes vão poder comparar preços dos fornecedores e obter orçamentos automáticos, acrescentando e retirando itens até chegar à proposta que considerarem ideal.

A expectativa é que, em dois anos, a Globalweb Cloud atinja um faturamento de R$ 200 milhões. É uma receita expressiva para a Globalweb Corp, que reúne mais cinco empresas de software, serviços e nuvem. Em abril, o grupo encerrou o ano fiscal com faturamento de R$ 280 milhões. No exercício anterior, a receita chegou a R$ 490 milhões. A diferença, segundo a empresa, se deve à venda da Compusoftware, subsidiária de software que foi comprada em janeiro de 2016 pela russa Softline.

A Globalweb Cloud vai contar com um centro de dados localizado em um condomínio erguido em Santana do Parnaíba (SP) pela Odata, controlada pelo grupo Pátria Investimentos. O complexo conta com 12 salas de tecnologia, uma das quais será usada pela Globalweb Cloud. Enquanto a Odata fornece a infraestrutura, como energia e ar-condicionado, cada “condômino” cuida dos serviços a seus próprios clientes. “É como se tivéssemos alugado apartamento em um prédio”, diz a empresária.

Cristina ficou conhecida em 1996, quando mandou um avião sobrevoar Brasília, onde morava à época, com a faixa “Welcome, Bill Gates”. A frase era assinada em nome da TBA, a revendedora de softwares que ela criara quatro anos antes. Foi o estratagema escolhido para chamar a atenção do cofundador da Microsoft, depois que os pedidos para um encontro foram negados. Deu certo. Do prédio do Banco do Brasil, onde participava de uma reunião, Gates viu a faixa e mandou chamar a empresária. Tempos depois, a TBA chegou a ser premiada como a maior revenda de produtos da Microsoft fora dos Estados Unidos.

Em 2002, Cristina formou uma joint venture com o grupo Tata, um dos maiores da Índia, para criar softwares sob medida para empresas no Brasil. A aliança durou cinco anos até a participação da empresária brasileira ser comprada pelos indianos.

A ideia de criar um “shopping” virtual de fornecedores de tecnologia não é nova na Globalweb. Em 2013, a companhia pôs no ar o site Vouclicar.com, com abordagem parecida e foco em empresas de pequeno porte. Em setembro do ano passado, no entanto, Cristina chegou à conclusão de que era hora de mudar. “A conta não fechava”, diz, sobre o descompasso entre investimento e receita. O diagnóstico foi que o valor médio das compras era pequeno demais para sustentar o negócio em longo prazo. “Erramos onde muito outros erraram, em acreditar que a maior parte dos recursos viria da base da pirâmide”, afirma a empresária.

Com a Globalweb Cloud, o plano é expandir a atuação para companhias maiores, com mais capacidade de investimento. A ideia é aproveitar as transformações que essas empresas estão tendo de fazer para reduzir custos, como automatizar processos e investir em robôs de atendimento aos clientes. O site Vouclicar.com continuará em funcionamento. “Sistemas muito novos estão surgindo e vão tomar a dianteira”, diz Cristina. “O mercado já está procurando antecipar qual será a demanda no futuro.”


Matéria Publicada originalmente no Valor Econômico 21 de Setembro de 2017 – Por João Luiz Rosa | De São Paulo – Silvia Zamboni/Valor

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